Nos últimos anos, a temática da Política Nacional de Inteligência Artificial tem ganhado cada vez mais destaque no cenário público brasileiro, refletindo a importância estratégica dessa agenda para o desenvolvimento tecnológico, econômico e social do país. Um relatório elaborado e aprovado pela Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado evidenciou que, apesar de avanços relevantes, ainda existem desafios estruturais que precisam ser enfrentados para que essa política pública atinja seus objetivos com eficiência e impacto duradouro.
O relatório aprovado no final de 2025 analisou de forma integrada três instrumentos centrais voltados à inteligência artificial, incluindo a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial e um projeto de lei que estabelece um marco regulatório amplo para a tecnologia. Essa avaliação foi conduzida com base em critérios como planos e objetivos, monitoramento e avaliação, institucionalização, participação social e gestão de riscos, entre outros.
Apesar de reconhecer que houve iniciativas que traduzem uma visão estratégica, o documento identificou lacunas que comprometem a efetividade das ações implementadas. Dentre os principais pontos frágeis estão a ausência de metas e indicadores quantificáveis que permitam medir resultados concretos, além da falta de um sistema de governança unificado que coordene as ações entre diferentes ministérios e esferas do governo.
Outro desafio destacado pela avaliação refere-se à gestão de dados e à interoperabilidade dos sistemas. A falta de padronização e integração entre diferentes bases de dados limita a capacidade de desenvolver soluções tecnológicas robustas e confiáveis. Essa fragilidade também tem impacto direto na eficiência da implementação de políticas públicas e na geração de insights estratégicos para o setor como um todo.
A capacidade operacional do Estado para conduzir e sustentar essas políticas ao longo do tempo também foi apontada como insuficiente. A sustentabilidade financeira das iniciativas ainda carece de mecanismos sólidos de financiamento, o que pode comprometer a continuidade dos investimentos em pesquisa, capacitação de pessoas e infraestrutura tecnológica.
O relatório ressalta ainda a necessidade de mecanismos formais de gestão de riscos e auditoria algorítmica, capazes de prevenir ou mitigar impactos indesejados decorrentes da adoção de sistemas automatizados. A introdução de normas claras nesse sentido é vista como fundamental para assegurar a transparência e a responsabilização no uso de tecnologias inteligentes.
Apesar dos desafios, o documento reconhece que o Brasil possui pontos fortes que podem ser catalisadores para um desenvolvimento equilibrado da inteligência artificial no país. A existência de centros de pesquisa aplicados que conectam universidades, governo e setor produtivo, por exemplo, representa um ativo importante. Além disso, a diversidade de contextos e demandas sociais pode impulsionar soluções inovadoras com impacto real para o cidadão.
Por fim, o relatório apresenta recomendações que visam aprimorar a estrutura atual, como a criação de um painel nacional de indicadores, a instituição de uma instância permanente de coordenação, a expansão de programas de formação técnica e a integração dessa política com agendas maiores de inovação industrial. Essas recomendações, se implementadas, podem contribuir para consolidar uma política pública mais coesa, sustentável e alinhada às necessidades contemporâneas e futuras do Brasil.
Autor : Robert Villines