Durante muito tempo, a nutrição concentrou sua atenção principalmente na qualidade e na quantidade dos alimentos consumidos. Mais recentemente, porém, uma nova área da ciência passou a demonstrar que existe outro fator capaz de influenciar profundamente o metabolismo: o horário em que comemos. Lucas Peralles, nutricionista esportivo, reflete que o organismo humano funciona de acordo com um sofisticado relógio biológico, responsável por coordenar processos como produção hormonal, digestão, gasto energético e utilização dos nutrientes ao longo das vinte e quatro horas do dia.
Esse campo de estudo, conhecido como cronobiologia, deu origem à crononutrição, área que investiga como a sincronização entre alimentação e ritmos biológicos pode influenciar a saúde metabólica. Em vez de perguntar apenas “o que comer”, pesquisadores passaram a investigar “quando comer”. As descobertas mostram que nosso organismo não responde da mesma forma aos alimentos em todos os horários, pois hormônios, enzimas digestivas e sensibilidade à insulina variam continuamente conforme o ciclo circadiano. Em outras palavras, o corpo também possui uma programação temporal para realizar suas funções com maior eficiência.
O corpo realmente possui um relógio interno?
O chamado ritmo circadiano corresponde a um conjunto de ciclos biológicos que se repetem aproximadamente a cada 24 horas. Esse sistema é coordenado principalmente pelo núcleo supraquiasmático, uma pequena estrutura localizada no hipotálamo que recebe informações sobre a luminosidade do ambiente e sincroniza diferentes funções do organismo. A partir dessa coordenação, praticamente todos os órgãos seguem uma programação própria para produzir hormônios, regular a temperatura corporal, controlar o metabolismo e alternar períodos de maior ou menor atividade fisiológica.
Entretanto, o cérebro não é o único a seguir esse relógio. Fígado, pâncreas, intestino, tecido adiposo e músculos também possuem mecanismos internos capazes de responder aos horários habituais das refeições. Conforme explica Lucas Peralles, quando alimentação, sono e exposição à luz permanecem relativamente sincronizados, esses sistemas trabalham de maneira coordenada. Por outro lado, horários constantemente irregulares podem dificultar essa organização, obrigando o organismo a adaptar continuamente seu funcionamento.
Por que o metabolismo muda ao longo do dia?
Ao acordarmos, ocorre um aumento natural da produção de cortisol, hormônio frequentemente associado apenas ao estresse, mas que também desempenha importante papel fisiológico. Nesse período, ele ajuda a mobilizar energia, elevar discretamente a glicemia e preparar o organismo para iniciar as atividades do dia. Paralelamente, a temperatura corporal aumenta, diversas enzimas digestivas tornam-se mais ativas e a capacidade metabólica tende a favorecer a utilização dos nutrientes.
À medida que a noite se aproxima, esse cenário começa a mudar. A produção de cortisol diminui progressivamente enquanto a melatonina aumenta, sinalizando ao organismo que é hora de reduzir o estado de alerta e preparar-se para o descanso. Estudos indicam que, nesse período, a sensibilidade à insulina também tende a diminuir, fazendo com que o metabolismo da glicose ocorra de maneira diferente em comparação com as primeiras horas do dia. Na avaliação de Lucas Peralles, em sua experiência como nutricionista esportivo e fundador do método LP, compreender essa dinâmica ajuda a explicar por que o organismo não responde de forma idêntica à mesma refeição consumida em horários completamente diferentes.
O horário das refeições influencia a forma como o corpo utiliza energia?
Pesquisas em crononutrição sugerem que refeições realizadas em horários muito irregulares podem interferir na sincronização entre os relógios biológicos presentes nos diferentes órgãos. Quando o cérebro recebe sinais de que é momento de descansar, mas o sistema digestório é constantemente estimulado por refeições tardias, parte dessa coordenação fisiológica pode ser comprometida. Isso não significa que comer à noite seja necessariamente prejudicial para todas as pessoas, mas indica que o metabolismo responde de maneira diferente conforme o momento do dia.

Essa discussão torna-se ainda mais relevante em trabalhadores por turno, profissionais que alternam frequentemente seus horários ou indivíduos que apresentam privação crônica de sono. Nesses casos, ocorre um fenômeno conhecido como dessincronização circadiana, situação em que diferentes sistemas do organismo deixam de trabalhar de forma totalmente alinhada. Conforme destaca Lucas Peralles, manter certa regularidade nos horários das refeições pode contribuir para preservar essa organização biológica, favorecendo o funcionamento integrado do metabolismo.
O estilo de vida moderno desafia nosso relógio biológico?
Poucas gerações viveram tão distantes dos ciclos naturais quanto a atual. A iluminação artificial permite permanecer acordado até altas horas, celulares e computadores prolongam a exposição à luz durante a noite e compromissos profissionais frequentemente modificam horários de sono e alimentação. Além disso, aplicativos de entrega e estabelecimentos que funcionam vinte e quatro horas tornaram possível comer praticamente a qualquer momento, independentemente do ritmo biológico do organismo.
Esse cenário favorece um fenômeno conhecido como jet lag social, caracterizado pela diferença entre o relógio biológico natural e os horários impostos pela rotina. Dormir tarde durante a semana, compensar o sono nos fins de semana e alternar constantemente os horários das refeições são exemplos comuns desse desalinhamento. No que considera Lucas Peralles, embora o organismo possua grande capacidade de adaptação, manter esses ciclos desorganizados por longos períodos pode dificultar a regulação hormonal e o equilíbrio metabólico, tornando ainda mais importante respeitar uma rotina compatível com as necessidades biológicas sempre que possível.
A crononutrição mostra que saúde também depende de quando nos alimentamos
Durante décadas, acreditou-se que alimentação saudável dependia apenas da escolha dos alimentos. Na contemporaneidade, as evidências apontam que o momento em que nos alimentamos também participa do funcionamento do metabolismo. O relógio biológico influencia hormônios, digestão, utilização da glicose e diversos processos que determinam a maneira como o organismo responde a cada refeição ao longo do dia.
Os avanços da cronobiologia não estabelecem horários universais válidos para todas as pessoas, mas reforçam a importância de compreender que nosso corpo trabalha em ciclos organizados. Como ressalta Lucas Peralles, fundador do método LP e referência em nutrição esportiva em São Paulo, respeitar esses ritmos, manter maior regularidade entre sono, alimentação e atividade física e evitar mudanças constantes na rotina são estratégias que ajudam o organismo a funcionar de maneira mais eficiente. Afinal, assim como aprendemos hábitos ao longo da vida, o corpo também aprende seus horários e procura organizar seu metabolismo de acordo com eles.