Guilherme Campos tem acompanhado um fenômeno que coloca Roraima em uma posição inédita no debate urbano brasileiro: o estado registrou o maior crescimento populacional do país em 2025, impulsionado majoritariamente pela migração venezuelana, e Boa Vista se consolidou como a capital que mais cresceu entre todas as do Brasil no mesmo período. Esse tipo de expansão acelerada raramente acontece sem custos, e a forma como o poder público e o setor produtivo respondem a esse movimento tende a definir o tipo de cidade que Roraima vai construir nas próximas décadas.
O caso roraimense interessa porque sintetiza, em escala reduzida, um dilema que se repete em diferentes regiões do país: como absorver crescimento populacional rápido sem reproduzir os erros clássicos da urbanização brasileira, marcada historicamente por infraestrutura que chega depois da ocupação. A diferença é que, em Roraima, esse processo está acontecendo agora, em tempo real, e ainda há margem para que as decisões tomadas nos próximos anos evitem gargalos que outras capitais levaram décadas para enfrentar.
Esse cenário levanta uma pergunta que vai além da geografia local: é possível transformar um crescimento explosivo em desenvolvimento urbano de qualidade, ou o ritmo acelerado da ocupação está condenado a superar a capacidade de planejamento das cidades?
Um crescimento sem precedentes na história recente do estado
Os números ajudam a entender a magnitude do fenômeno. Roraima encerrou 2025 com 738.772 habitantes, alta de 3,07% em relação ao ano anterior, a maior taxa entre todos os estados brasileiros, segundo estimativas do IBGE. Boa Vista, a capital, concentra hoje 65% dessa população, com 485,4 mil moradores e crescimento de 3,26% no período, também o maior entre todas as capitais do país. Em uma década, a cidade passou de cerca de 320 mil para praticamente 485 mil habitantes, um avanço de 45%.
Esse ritmo de expansão é raro mesmo em comparação internacional. Cidades costumam levar gerações para dobrar de tamanho; Boa Vista está fazendo esse movimento em um intervalo de tempo muito mais curto, pressionada por um fluxo migratório que, segundo o Observatório das Migrações Internacionais, trouxe mais de 96 mil novos venezuelanos para o município em 2025, uma média que chegou a superar 10 mil pessoas por mês em determinados períodos, conforme relatado pela própria gestão municipal. De acordo com Guilherme Campos, esse tipo de expansão acelerada é justamente o que torna o planejamento urbano um fator decisivo, e não apenas desejável, para o futuro de cidades como Boa Vista.
Por que crescer rápido não significa crescer bem?
O crescimento populacional acelerado tensiona simultaneamente diferentes frentes da administração pública: saúde, educação, mobilidade, saneamento e segurança. Vice-prefeitos e gestores locais têm reconhecido publicamente que o avanço populacional pressiona diretamente áreas como saúde, educação, trânsito e infraestrutura urbana, e que a demanda por vagas em creches, por exemplo, ainda supera a oferta disponível na rede municipal.
Esse tipo de pressão não é exclusividade de Roraima; é o retrato clássico de cidades que crescem mais rápido do que sua capacidade institucional de planejar. A diferença está na escala do desafio: poucos municípios brasileiros enfrentam, simultaneamente, um fluxo migratório internacional intenso e uma estrutura urbana originalmente dimensionada para uma população muito menor. Sob a perspectiva de Guilherme Campos, esse descompasso entre demanda e oferta de infraestrutura é precisamente o ponto em que o planejamento urbano deixa de ser um conceito abstrato e se torna condição de governabilidade.

De que forma a antecipação de obras em Roraima pode mudar o padrão de crescimento urbano em comparação com outras cidades brasileiras?
Roraima não está alheia a esse desafio. O estado concluiu, em 2025, sua interligação ao Sistema Interligado Nacional de Energia, resolvendo um problema histórico de segurança energética que limitava a atração de investimentos. Em paralelo, Boa Vista negocia um financiamento internacional de cerca de cem milhões de dólares junto ao Banco Mundial, destinado a obras estruturantes de mobilidade urbana, incluindo duplicação de vias e um viaduto na região do Ibama.
Esses movimentos indicam uma tentativa de antecipação, e não apenas de reação aos problemas já instalados, uma diferença conceitual relevante quando se observa o padrão histórico das cidades brasileiras. Conforme análise associada ao desenvolvedor imobiliário, planejar antes que a demanda se manifeste integralmente é o que separa cidades que conseguem direcionar seu crescimento daquelas que apenas absorvem passivamente a pressão populacional, com custos sociais e econômicos crescentes ao longo do tempo.
Em paralelo a essas obras, o estado também recebeu, em janeiro de 2026, um acordo de R$ 115 milhões firmado com a União para custear impactos da migração venezuelana em áreas como segurança pública, saúde, educação e sistema prisional ainda que o próprio governo estadual tenha sinalizado que o valor pode ser insuficiente diante da magnitude do fluxo migratório recebido.
Por que Boa Vista se tornou um hotspot para investimentos em infraestrutura urbana?
Para quem acompanha o mercado imobiliário e de infraestrutura, o cenário roraimense representa simultaneamente risco e oportunidade. O crescimento populacional sustentado tende a pressionar a demanda por moradia, comércio e serviços urbanos, criando espaço para empreendimentos que antecipem essa necessidade de forma organizada. Na avaliação de especialistas em desenvolvimento regional, regiões que conseguem transformar pressão demográfica em planejamento estruturado tendem a se valorizar de forma mais consistente do que aquelas que apenas absorvem a expansão sem direção clara.
Esse raciocínio explica por que Boa Vista tem atraído atenção crescente de quem pensa em investimentos de longo prazo em infraestrutura urbana. Na interpretação de Guilherme Campos sobre movimentos observados no setor, cidades que vivem ciclos de crescimento acelerado, como Boa Vista hoje, concentram justamente o tipo de oportunidade que exige visão estratégica: o momento de planejar é exatamente quando a pressão ainda não se transformou em colapso de infraestrutura.
O Norte do Brasil como laboratório do urbanismo do futuro
O caso de Roraima não deve ser lido isoladamente. Ele se conecta a um movimento mais amplo de reposicionamento da Região Norte no mapa econômico brasileiro, impulsionado por fatores que vão da geopolítica regional à expansão do agronegócio e da logística. Estados que historicamente cresceram à margem dos grandes investimentos nacionais agora enfrentam a tarefa inversa de décadas anteriores: gerenciar crescimento acelerado, e não escassez de demanda.
Esse contexto coloca Roraima, e Boa Vista em particular, em uma posição de teste real para modelos de planejamento urbano que equilibrem expansão econômica, inclusão social e infraestrutura adequada. Guilherme Campos sustenta que esse tipo de cenário, embora desafiador, representa uma oportunidade rara: a de planejar uma cidade em pleno crescimento, em vez de remediar décadas de ocupação desordenada. Se as obras em andamento e os investimentos planejados para os próximos anos forem conduzidos com a coordenação que o momento exige, o estado pode se tornar uma referência de como transformar pressão populacional em desenvolvimento urbano sustentável, um modelo que outras regiões emergentes do país, enfrentando desafios semelhantes, poderão observar com atenção nos próximos ciclos de expansão.
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Autor: Diego Rodríguez Velázquez.